Por Maria Cláudia A. Klein
De 15 a 18 de outubro, a 10ª edição do festival reúne arquitetura, design, arte, artesanato, moda e gastronomia em 22 espaços espalhados por 17 endereços de Tiradentes (MG)
Tiradentes vai deixar de ser apenas destino turístico em outubro para se transformar em um dos grandes pontos de encontro da criatividade brasileira. Entre os dias 15 e 18 de outubro de 2026, a cidade histórica mineira recebe a 10ª edição da Semana Criativa de Tiradentes, festival que chega a uma década de trajetória ampliando as fronteiras entre design, arquitetura, arte, artesanato, moda, gastronomia, música e patrimônio.
A expectativa é receber mais de 22 mil visitantes durante os quatro dias de programação, que terá mais de 80 palestrantes e cerca de 200 atividades, distribuídas por diferentes casas, ruas e espaços históricos da cidade.
Mais do que comemorar uma década, a edição de 2026 marca uma mudança importante na identidade do festival: aquilo que nasceu a partir do encontro entre design e artesanato tornou-se uma plataforma de valorização da cultura brasileira e de conexão entre diferentes territórios, saberes e formas de criação.

“Hoje, entendemos a Semana Criativa de Tiradentes como um festival de criatividade e cultura em que essas diferentes áreas se encontram e se contagiam positivamente”, afirma a jornalista Simone Quintas, idealizadora do evento ao lado do produtor cultural Júnior Guimarães.
Por que a Semana Criativa de Tiradentes se tornou um dos eventos mais importantes do design brasileiro?
A resposta está justamente na maneira como o festival ocupa a cidade.
Em vez de concentrar sua programação em um centro de convenções, a Semana Criativa acontece dentro da própria paisagem urbana de Tiradentes. Casarões históricos, ruas e diferentes endereços tornam-se parte da experiência, aproximando visitantes, profissionais criativos, artesãos e moradores.
Essa escolha também transforma a arquitetura e o patrimônio em elementos ativos da programação.
Para Júnior Guimarães, Tiradentes não funciona apenas como pano de fundo. A cidade é parte da identidade do evento e estabelece uma relação direta entre patrimônio, saberes tradicionais e produção contemporânea.
O resultado é uma experiência que convida o visitante não apenas a assistir a palestras ou visitar exposições, mas a caminhar, descobrir espaços e estabelecer contato com a própria história da cidade.




Público cresceu 57% em apenas um ano
Os números ajudam a explicar a dimensão que o festival alcançou.
Em 2024, a Semana Criativa recebeu cerca de 14 mil visitantes. Em 2025, o público chegou a aproximadamente 22 mil pessoas, crescimento de 57% em um ano.
O número equivale a cerca de três vezes a população de Tiradentes.
A força do evento também aparece na origem do público: 46% vêm de Minas Gerais, 23% de São Paulo, 13% do Rio de Janeiro e 18% de outros estados brasileiros.
Para a economia local, esse fluxo representa impacto direto em setores como hospedagem, alimentação, transporte e comércio.
E existe ainda uma característica especialmente relevante para o mercado de arquitetura e design: 36% do público da edição mais recente foi formado por arquitetos, designers e paisagistas.
10ª edição estreia com Casa D’Preto e Casa Rio
Entre as novidades mais importantes de 2026 estão dois novos espaços que ampliam a representatividade e o alcance cultural do festival: A Casa D’Preto e a Casa Rio.

A chegada desses projetos traduz uma das principais características da nova fase da Semana Criativa: incorporar diferentes territórios, repertórios e narrativas à discussão sobre criatividade brasileira.
Casa D’Preto: ancestralidade, arquitetura e representatividade
Instalada no Casarão Ramalho, sede do IPHAN, A Casa D’Preto nasce sob curadoria dos arquitetos e urbanistas Pedro Rubens e Heloisa Nascimento.
O projeto parte de uma questão urgente: valorizar saberes, artes e tecnologias ancestrais que historicamente tiveram pouco espaço nas narrativas dominantes.
O símbolo Adinkra Eban, associado a amor, segurança, abrigo e proteção, orienta a proposta.

A programação reúne a exposição Orí-gem, com artistas como Bruno Henrique de Souza, Hudson Silveira, Selma Maria e Elizabeth Ramos; o I Encontro Nacional do HUB Arquitetura D’Preto, com coordenadores de 16 estados brasileiros e Lisboa; além do lançamento da Plataforma Arquitetura D’Preto, voltada à conexão entre clientes e profissionais negros da construção civil.
Também integra a programação a exibição do documentário A Casa D’Preto, dirigido por Daniel Pereira e Tainara Matos.

A proposta amplia uma discussão fundamental para o design e para a arquitetura contemporânea: quem produz, quem é reconhecido e quais histórias fazem parte da construção da identidade brasileira.

Casa Rio leva o repertório fluminense a Tiradentes
Outra estreia é a Casa Rio, espaço-conceito criado por Didi Maakaröun, do Conceito MAADI, e Vivi Baldeija, da Capivara do Vale.
A proposta reúne design autoral, arte, artesanato e experiências sensoriais, criando uma narrativa contemporânea sobre a cultura fluminense.
Mais do que uma exposição, a Casa Rio pretende estabelecer conexões comerciais e afetivas com o público, levando para Tiradentes diferentes referências da produção criativa do Rio de Janeiro.
De Norte a Nordeste: festival amplia o mapa da criatividade brasileira
A diversidade territorial também aparece em espaços que já fazem parte da identidade da Semana Criativa.
Na Casa Pará, a cultura amazônica encontra o design contemporâneo em uma programação que reúne artesãos e designers nortistas. O espaço apresenta trabalhos com miriti, manifestações de artes manuais ancestrais, intervenções artísticas e experiências gastronômicas.
Na Casa Mata Atlântica, cultura, literatura, gastronomia e artesanato se aproximam a partir da relação com o bioma. A proposta valoriza matérias-primas, pequenos produtores e práticas associadas à sustentabilidade.
Já a Casa do Design Cearense apresenta a produção de criadores como Érico Gondim e Leo Ferreiro, aproximando o design contemporâneo do Ceará de técnicas ancestrais ligadas à palha e à argila.
O resultado é uma espécie de mapa afetivo da produção brasileira: diferentes regiões, matérias-primas e saberes reunidos em uma mesma cidade.
Casa Criativa é o coração do festival
Entre os endereços da programação está a Casa Criativa, instalada em um casarão histórico e considerada o QG da Semana Criativa.
O espaço reúne exposições e mostras resultantes de encontros entre designers e artesãos brasileiros, além de funcionar como polo de comercialização de design autoral.
Também estão previstas palestras, rodas de conversa sobre sustentabilidade e oficinas afetivas, como o tradicional Agulhaço.
É justamente nessa combinação entre criação, conhecimento e comercialização que o festival encontra uma de suas principais forças: transformar o artesanato em protagonista da economia criativa, sem dissociá-lo do design contemporâneo.
Mercado da Semana Criativa ganha novo endereço
A dimensão comercial também ganha espaço em 2026.
O Mercado da Semana Criativa passa a funcionar na Villa da Matriz, reunindo marcas, artesãos e pequenos produtores de diferentes regiões do Brasil.
A iniciativa consolida uma frente importante para a produção autoral: oferecer visibilidade e oportunidades de comercialização para quem cria.
Ao mesmo tempo, a própria estrutura descentralizada do festival ajuda a movimentar a economia de Tiradentes, já que o público circula entre diferentes pontos da cidade.
Festival que acontece o ano inteiro
Talvez uma das transformações mais importantes da Semana Criativa esteja justamente fora dos quatro dias de outubro.
A criação da Escola da Semana Criativa de Tiradentes e as imersões realizadas ao longo do ano ampliam a atuação do projeto e aproximam designers, arquitetos e artesãos da região.
A proposta é criar uma atuação permanente voltada à transmissão de saberes, formação, geração de renda e fortalecimento da economia criativa local.
“Uma das transformações mais importantes desses dez anos foi entender que a Semana Criativa não poderia existir apenas durante quatro dias por ano”, explica Simone Quintas.
A fala aponta para um desafio que acompanha festivais culturais de grande porte: fazer com que o crescimento do evento produza um legado permanente para o território que o recebe.
O morar do brasileiro
Em um momento em que arquitetura, design e decoração discutem cada vez mais autenticidade, memória, sustentabilidade, produção artesanal e identidade cultural, a Semana Criativa de Tiradentes chega aos 10 anos em sintonia com algumas das questões mais relevantes do setor.
Seu diferencial não está apenas na quantidade de nomes ou atividades, mas na capacidade de colocar em diálogo o fazer manual e o design, o passado e o contemporâneo, o patrimônio e a inovação, o local e o nacional.
Ao ocupar Tiradentes, o festival faz da própria cidade uma experiência.
E talvez seja justamente essa a sua maior potência: lembrar que criatividade não nasce apenas de tendências. Ela também nasce de território, memória, pessoas e histórias que continuam sendo contadas pelas mãos de quem cria.

Semana Criativa de Tiradentes 2026
10ª Semana Criativa de Tiradentes
Data: 15 a 18 de outubro de 2026
Local: Tiradentes (MG), com programação distribuída por diferentes pontos da cidade
Ingressos: gratuitos, com reservas para palestras pelo site oficial
Programação completa: disponível a partir de 5 de outubro no site oficial e nos canais da Semana Criativa de Tiradentes.
Tinta oficial: Coral
Patrocínio máster: Electrolux
Patrocínio: Sebrae e Casa Riachuelo
Copatrocínio: Eliane e Decortiles
Apoio: Atlas Revestimentos, CAU-MG, Germer Porcelanas e Lider
Parceria cultural: Belotur, Prefeitura de Belo Horizonte, Metropolitano, Villa da Matriz e UNESCO