Casa da Marcenaria Brasileira na CASACOR São Paulo 2026 transforma a madeira em protagonista da arquitetura contemporânea

A madeira deixa de ser apenas um elemento construtivo para se tornar protagonista da arquitetura na Casa da Marcenaria Brasileira | Duratex, ambiente assinado pelo arquiteto João Panaggio para a CASACOR São Paulo 2026. Com 250 m² e desenvolvido em parceria com a Duratex, o projeto propõe uma imersão sensorial na cultura da marcenaria nacional, revelando como matéria, técnica e memória se entrelaçam para construir uma narrativa arquitetônica contemporânea. Inspirado pelo tema da mostra, “Mente e Coração”, o espaço convida o público a refletir sobre o fazer artesanal e a permanência da madeira como patrimônio cultural e linguagem de design.

Reconhecido por desenvolver projetos que valorizam os processos construtivos e o trabalho manual, João Panaggio apresenta um percurso que vai além da estética. A experiência começa em um corredor estreito, de atmosfera quase bruta, onde a madeira surge em seu estado mais essencial, carregando marcas do tempo e do trabalho humano. A sensação é de mergulho na origem da matéria-prima, preparando o visitante para compreender a evolução do material até sua transformação em arquitetura.

Na sequência, o ambiente se abre para um espaço amplo e iluminado, dedicado ao ato da criação. É nesse momento que a madeira deixa de representar apenas um recurso construtivo e passa a simbolizar ideia, desenho e intenção. A arquitetura revela seu processo criativo, permitindo que o visitante acompanhe, simbolicamente, o nascimento de um projeto.

O grande destaque visual é a monumental estante modular que ocupa toda a altura do pé-direito. Produzida em MDF Carvalho Brun, da Duratex, a peça organiza o espaço por meio da repetição de módulos e da precisão dos encaixes, funcionando como um verdadeiro arquivo da marcenaria brasileira. Mais do que um móvel, a estrutura evidencia a disciplina do ofício e demonstra como técnica e beleza caminham lado a lado no design nacional.

Em contraponto à linearidade da estante, uma escada helicoidal introduz movimento à composição. Escultural, fluida e contínua, ela parece ter sido moldada artesanalmente, transformando a madeira em um elemento dinâmico que conduz o olhar e o percurso do visitante. O desenho celebra a habilidade manual dos marceneiros e reforça o diálogo entre tradição e inovação.

No mezanino, o ritmo desacelera. A vista panorâmica permite compreender a organização do ambiente e observar detalhes que muitas vezes passam despercebidos, como encaixes, cortes e proporções cuidadosamente executados. O espaço convida à contemplação e evidencia o refinamento técnico presente em cada solução arquitetônica.

Entre as amplas janelas, revisteiros giratórios desenhados por João Panaggio assumem papel escultórico. Revestidos nos padrões Hibisco e Marrom Retrô da Duratex, os elementos funcionam simultaneamente como mobiliário, instalação artística e exposição dos principais sistemas de encaixe da marcenaria brasileira — entre eles rabo-de-andorinha, meia-madeira, espiga e lingueta — reinterpretados em linguagem contemporânea.

A materialidade reforça a atmosfera acolhedora do projeto. As paredes recebem acabamento no padrão Papiro Bege, da Duratex, enquanto o piso em porcelanato Travertine Castelatto, da Portinari, amplia a sensação de continuidade e luminosidade. A abundante iluminação natural valoriza texturas, revela nuances da madeira e cria uma composição equilibrada entre superfícies claras e tonalidades mais profundas.

O living central reúne importantes nomes do design brasileiro em uma curadoria assinada pela Etel Design. O percurso apresenta obras de Etel Carmona, Claudia Moreira Salles, Lia Siqueira e Lina Bo Bardi, além de um núcleo dedicado a Jorge Zalszupin, com destaque para a icônica coleção Cubo, criada no final da década de 1970. Uma linha do tempo construída por meio de poltronas históricas evidencia a evolução do mobiliário brasileiro, destacando a riqueza das madeiras nacionais, o domínio técnico e a sofisticação dos encaixes artesanais.

A experiência ganha novas camadas com a curadoria de arte de Lurdinha Piquet, que reúne obras de Laura Vinci, Laercio Redondo, Felipe Cohen, Iole de Freitas, Maria Antônia e Carla Santana, além de uma instalação site-specific de Manoela Medeiros. As obras dialogam diretamente com a arquitetura, ampliando reflexões sobre matéria, tempo, permanência e transformação.

Mais do que um ambiente expositivo, a Casa da Marcenaria Brasileira | Duratex reafirma a força da madeira como elemento cultural, artístico e arquitetônico. Ao transformar técnicas tradicionais em linguagem contemporânea, João Panaggio entrega um dos espaços mais conceituais da CASACOR São Paulo 2026, mostrando que a verdadeira inovação nasce do respeito ao ofício, da valorização do fazer manual e da capacidade de transformar memória em arquitetura.

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Maria Cláudia Aravecchia Klein

Maria Cláudia é jornalista, mentora de Marketing de Conteúdo e especialista em Casa & Decor. Atua com publieditoriais, consultorias e produção de conteúdo desde 1997. Fundadora da Revista Vida Prática, é colunista em portais do setor e referência em conectar marcas ao público com autenticidade e propósito.