Por Maria Cláudia Aravecchia Klein
Fotos: @RaNicácio
Museu a céu aberto em Brumadinho (MG) conclui a restauração de 128 esculturas mobiliárias do artista Hugo França, feitas com madeira da Mata Atlântica, preservando um dos mais emblemáticos acervos de arte e natureza do país.
Poucos lugares no mundo conseguem reunir arte contemporânea, arquitetura, paisagismo e biodiversidade de forma tão integrada quanto o Inhotim. Localizado em Brumadinho, Minas Gerais, o instituto transformou-se em um dos principais destinos culturais da América Latina ao oferecer uma experiência em que galerias, jardins botânicos e obras monumentais dialogam em perfeita sintonia com a paisagem.
Entre esse patrimônio está a maior coleção permanente de Hugo França, artista e designer brasileiro reconhecido por transformar troncos, raízes e resíduos florestais em esculturas que desafiam a fronteira entre mobiliário e obra de arte. Agora, esse conjunto acaba de passar por um amplo processo de restauração, preservando peças que fazem parte da própria identidade visual do museu.
Ao todo, 128 esculturas distribuídas pelos jardins de Inhotim receberam um tratamento de conservação para ampliar sua resistência à exposição contínua ao sol, à chuva e às variações climáticas. O projeto contou com o apoio da AkzoNobel, que doou 400 litros do protetor para madeira Sparlack Cetol, desenvolvido para proteger superfícies externas sem modificar a textura, a cor ou a aparência natural da madeira.
Mais do que elementos expositivos, as esculturas de Hugo França convidam o visitante à interação. Bancos, mesas e chaises surgem ao longo dos percursos do jardim como espaços de contemplação, tornando a experiência em Inhotim ainda mais sensorial. Entre as obras restauradas estão o Banco Ajubá, o Banco Kamonetá, o Banco Tupã e a Chaise Mongaba, posicionada em frente ao pavilhão de entrada do instituto.
O caráter singular dessas peças começa antes mesmo da criação. Hugo França trabalha exclusivamente com árvores que já completaram seu ciclo natural ou com grandes troncos e raízes descartados após ações de desmatamento ou queimadas. Em vez de retirar madeira da floresta, o artista ressignifica resíduos florestais, revelando formas orgânicas que preservam a memória da árvore e evidenciam a potência estética da natureza brasileira.
Toda a coleção instalada em Inhotim foi esculpida em madeira de Pequi-Vinagreiro (Caryocar edule), espécie nativa da Mata Atlântica conhecida pela extraordinária resistência e longevidade. Segundo conhecimentos tradicionais, alguns exemplares podem ultrapassar mil anos de existência, atributo que acrescenta uma dimensão histórica às esculturas espalhadas pelos jardins do museu.
As dimensões também impressionam. Algumas peças superam seis metros de comprimento e chegam a pesar quatro toneladas, tornando praticamente impossível sua movimentação depois de instaladas. O resultado são obras monumentais que parecem nascer da própria paisagem, como se sempre tivessem pertencido ao lugar.

“O trabalho celebra não apenas a força estética da natureza, mas também seu significado ecológico, histórico e educativo. Cada peça nasce do reaproveitamento da madeira e convida o público a refletir sobre preservação ambiental e sobre o valor dos saberes ancestrais”, define Hugo França.
A conservação desse acervo reforça um dos aspectos mais fascinantes de Inhotim: a capacidade de fazer da natureza uma extensão da arquitetura e da arte. Ali, as esculturas não ocupam salas climatizadas, mas convivem com árvores centenárias, lagos, jardins assinados e obras de alguns dos principais nomes da produção artística contemporânea.
Para marcar a iniciativa, a AkzoNobel também produziu um filme que acompanha o percurso da madeira — da floresta ao ateliê e, finalmente, aos jardins do museu — explorando a semelhança entre as texturas da pele humana e da madeira. A narrativa visual reforça conceitos de permanência, transformação e preservação, em sintonia com a filosofia que orienta tanto o trabalho de Hugo França quanto a experiência proposta por Inhotim.
Em um momento em que o turismo busca experiências cada vez mais conectadas à natureza, ao design e à cultura, a restauração da coleção reafirma Inhotim como um destino onde arte e paisagem são indissociáveis. Um lugar em que caminhar pelos jardins significa descobrir esculturas monumentais que contam, ao mesmo tempo, a história da floresta brasileira e da criatividade de um de seus maiores designers.