Quarta edição do evento ocupou hotéis, museus e atrações turísticas e reforçou a vocação de Campos do Jordão para além da temporada de inverno
Fui convidada para conferir de perto a quarta edição do Campos do Jordão Design Festival. E a cidade começa a desenhar uma nova relação com o turismo. Se durante décadas o destino ficou associado principalmente ao frio e à temporada de inverno, o design, a arquitetura, a cultura e a hospitalidade vêm ajudando a ampliar esse calendário. O festival encerrado no último sábado (12), é um retrato dessa transformação: mais de 3 mil profissionais e convidados participaram da programação realizada ao longo de quatro dias.

Com o tema Design + Hospitalidade, o festival propôs uma experiência que ultrapassou os limites de um evento convencional. Em vez de concentrar sua programação em um único endereço, o CJDF ocupou diferentes pontos da cidade e transformou hotéis, espaços culturais e atrações turísticas em cenários para exposições, palestras, visitas guiadas e encontros.

A estratégia aproximou o design da própria experiência de quem visita Campos do Jordão. Entre os endereços que participaram da programação estiveram o ORT Hotel, Hotel Luis XV, Chris Wellness Hotel, Hotel Toriba, Figueira da Serra, Quebra Noz, Pousada D’Biagy Premium e Boulevard Genève, além do Museu CARDE, que integrou o roteiro e trouxe para o festival uma camada ligada ao patrimônio cultural e histórico.
A presença dos hotéis foi particularmente significativa. Eu, por exemplo, fiquei na lindíssima pousada D’Biagy Raízes. Mais do que funcionar como espaços de hospedagem, eles passaram a integrar a narrativa do festival, mostrando como arquitetura, interiores, arte, bem-estar e serviço podem fazer parte de uma mesma experiência.

No Hotel ORT, por exemplo, a programação incluiu a 3ª Mostra de Mobiliário Brasileiro Contemporâneo. Já o Chris Wellness Hotel recebeu a exposição Ancorar o Corpo, enquanto o Hotel Luis XV foi palco da mostra Talentos da Mantiqueira. No Hotel Toriba, os visitantes puderam conhecer os históricos afrescos de Fulvio Pennacchi, aproximando design, arte e memória.

A escolha dos espaços também revela uma mudança na maneira de pensar os grandes eventos de design. Em vez de criar uma estrutura temporária isolada da cidade, o festival utiliza a própria paisagem urbana e turística como parte de sua programação. O visitante percorre diferentes endereços e, nesse trajeto, conhece hotéis, restaurantes, museus, lojas e outros pontos de interesse.
Segundo Carmem Alvim, idealizadora e curadora do CJDF, a proposta desta edição foi justamente transformar em realidade a ideia de uma cidade que recebe o design e, simultaneamente, apresenta sua hospitalidade. Para ela, o resultado foi possível graças ao envolvimento dos hotéis, parceiros, profissionais, patrocinadores, poder público e equipe do festival.
Design como estratégia para o turismo
A dimensão turística do festival ganhou destaque também na avaliação do poder público. Para Fábio Machado Izar, secretário de Turismo e Desenvolvimento Econômico de Campos do Jordão, os efeitos do evento ultrapassam os dias de programação.
Segundo ele, a movimentação provocada pelo festival alcança hotéis, restaurantes, comércio e serviços, além de apresentar novos lugares aos visitantes e contribuir para ampliar a imagem da cidade como destino de cultura, design e experiências durante todo o ano.
Essa conexão entre design e turismo ajuda a explicar a escolha do tema Design + Hospitalidade. Em um mercado no qual hotéis e destinos procuram oferecer experiências cada vez mais completas, arquitetura e interiores deixam de ser apenas elementos estéticos e passam a participar da construção da identidade de um lugar.
A quarta edição também mostra a evolução do próprio festival. Criado em 2023, o CJDF registrou mais de 3 mil participantes em 2026, diante dos 2.300 registrados em 2025. Mais do que o crescimento numérico, a organização destaca a participação da própria cidade como um dos principais avanços desta edição.
Ao levar exposições e atividades para hotéis, museus e atrações turísticas, o evento transformou Campos do Jordão em uma espécie de circuito de design a céu aberto. A cidade, nesse contexto, deixa de ser apenas pano de fundo para o festival e passa a ser parte essencial dele.

O resultado é uma proposta que aproxima duas áreas cada vez mais conectadas: o design, responsável por criar ambientes, objetos e experiências, e a hospitalidade, que transforma esses espaços em lugares de permanência, acolhimento e memória.
Ao encerrar sua quarta edição, o Campos do Jordão Design Festival deixa, portanto, uma discussão que vai além das tendências de interiores e mobiliário. A pergunta passa a ser como o design pode contribuir para criar novos motivos para visitar uma cidade — e como destinos tradicionais podem se reinventar por meio da cultura, da arquitetura e das experiências.

Em Campos do Jordão, essa relação começa a ganhar forma. E o calendário da cidade já não precisa esperar o próximo inverno para voltar a acontecer.
Amamos essa experiência!