A cena gastronômica de São Paulo passa por uma mudança silenciosa — e profundamente estratégica. Em um movimento que une hospitalidade, arquitetura e comportamento urbano, restaurantes da capital começam a investir em espaços infantis estruturados, elevando o conceito de “family friendly” a um novo patamar no design de interiores.
Longe dos antigos cantinhos improvisados, com poucos brinquedos e pouca integração estética, as novas brinquedotecas surgem como extensões naturais dos ambientes gastronômicos. Projetadas com intenção, elas dialogam com o projeto arquitetônico e com a proposta sensorial da casa, permitindo que adultos e crianças compartilhem a experiência de forma mais equilibrada.
Um dos exemplos mais recentes é o MULI, em Santa Cecília, que inaugurou uma brinquedoteca em parceria com a marca de mobiliário infantil Muskinha. Idealizado pela arquiteta Isabel Nassif, o espaço nasce de uma vivência real: a maternidade da fundadora. O resultado é um ambiente que valoriza o brincar livre, com mobiliário na escala das crianças, estímulo à autonomia e uma estética que conversa com o restante do restaurante — sem rupturas visuais.


Na mesma linha, o Quincho, em Pinheiros, comandado pela chef Mari Sciotti, também incorporou uma brinquedoteca ao seu projeto. Desenvolvido em colaboração com a Muskinha e o escritório Fabular, o espaço parte da perspectiva infantil para definir materiais, proporções e usos. Elementos naturais, texturas táteis e propostas abertas de brincadeira criam um ambiente que estimula criatividade e independência, enquanto os adultos desfrutam da experiência gastronômica.

Já na Vila Mariana, a Casa do Araújo, de Daphne Bozanski, reforça essa tendência com um novo espaço kids assinado pela arquiteta Juliana Mancini, do Mini Noma. O projeto aposta em uma atmosfera afetiva e acolhedora, com cozinha lúdica, lousa para desenhos e área de leitura — compondo um cenário onde o design atua como mediador de relações e memórias.


Mais do que uma solução prática, a presença desses espaços revela uma transformação no modo de habitar a cidade. Em um contexto em que tempo de qualidade se torna um novo luxo, restaurantes passam a incorporar as necessidades das famílias de forma mais sensível e integrada. O resultado é um novo paradigma para o setor: experiências que não segregam, mas acolhem — onde o design de interiores deixa de ser apenas cenário e assume o papel de protagonista na construção de vínculos.
Assim, São Paulo consolida uma tendência que deve ganhar força em 2026: ambientes gastronômicos pensados para todos, onde estética, funcionalidade e afeto convivem em equilíbrio — e onde o simples ato de sair para comer fora se transforma em um momento mais fluido, prazeroso e, acima de tudo, compartilhado.
Foto de capa: A Chef Mari Sciotti e Amanda Chatah, co-fundadora da Muskinha
Fotos: Divulgação