De restauros a casas modernistas, passando por esquadrias, tijolos, paisagismo e transformações urbanas, a Jornada do Patrimônio 2026 transforma a cidade em um grande laboratório a céu aberto para profissionais de arquitetura e design

Conheça o processo de restauro e reconstrução após o incêndio.
Há cidades que se conhecem pelos cartões-postais. São Paulo, porém, exige um olhar mais atento.
É justamente essa proposta que orienta a Jornada do Patrimônio 2026, que acontece nos dias 15 e 16 de agosto, dentro do Festival do Patrimônio, realizado pela Prefeitura de São Paulo de 8 a 16 de agosto. Com o tema “São Paulo: cada olhar, uma história”, a programação reúne mais de 500 atrações gratuitas, entre roteiros, cursos, visitas, oficinas, shows e atividades em diferentes regiões da capital.
Para quem trabalha com arquitetura e design, a programação funciona como uma verdadeira aula de cidade. Mais do que visitar edifícios históricos, é uma oportunidade de entender como materiais, técnicas construtivas, paisagens, modos de morar e transformações urbanas ajudam a contar a história de São Paulo.
Entre os mais de 100 roteiros de memória e os cursos oferecidos pela Jornada, selecionamos aqueles que merecem entrar no radar de arquitetos, designers e profissionais ligados ao patrimônio.
1. Restauro da Igreja de Santo Antônio: quando preservar também significa transformar
Um dos programas mais interessantes para profissionais de arquitetura acontece na Igreja de Santo Antônio, na Praça do Patriarca, no Centro.
O roteiro apresenta o projeto de restauração desenvolvido pelo MLD RAI, abordando os desafios técnicos da intervenção e as soluções adotadas para preservar o edifício e, ao mesmo tempo, adequá-lo às necessidades contemporâneas.
A igreja, fundada no século XVI, é apontada pela organização como o mais antigo templo de São Paulo. A visita permite observar tanto os aspectos estruturais quanto os elementos artísticos e decorativos do edifício.
Quando: sábado, 15 de agosto, às 10h
Onde: Praça do Patriarca, 49 – Centro
Por que vale: é uma oportunidade de acompanhar, de perto, a discussão entre preservação, restauro e adaptação contemporânea.
2. Teatro Cultura Artística: o patrimônio depois do incêndio
Outro destaque é a visita guiada ao Teatro Cultura Artística, no domingo, 16.
O roteiro aborda o processo de restauro realizado depois do incêndio, incluindo danos, decisões de preservação e soluções técnicas.
Para arquitetos, é um caso especialmente interessante porque coloca em discussão uma questão cada vez mais presente no patrimônio: como reconstruir sem apagar as marcas da história?
Quando: domingo, 16 de agosto, às 10h
Onde: Rua Nestor Pestana, 196 – Centro
3. A arquitetura que quase ninguém olha
Nem sempre é preciso entrar em um edifício para descobrir algo novo.
A “Caminhada Cultural pelo Centro de São Paulo: Detalhes Quase Secretos da Arquitetura” propõe justamente uma mudança de escala no olhar.
Ornamentos, fachadas e detalhes que normalmente passam despercebidos tornam-se protagonistas. A caminhada também recupera histórias de arquitetos, idealizadores e trabalhadores que participaram da construção da cidade.
Quando: sábado, 15 de agosto, às 10h
Ponto de encontro: em frente ao Theatro Municipal
Para designers e arquitetos, é quase um exercício de repertório visual.
4. São Paulo de vidro: Roger Zmekhol e a paisagem moderna da Paulista
Para quem gosta de arquitetura moderna, um roteiro merece atenção especial: “São Paulo de Vidro: a promessa do Brasil moderno na obra de Roger Zmekhol”.
A caminhada parte do Parque Trianon e percorre a obra do arquiteto Roger Zmekhol, autor de edifícios que ajudaram a construir a identidade visual da Avenida Paulista.
A proposta é observar como a arquitetura de vidro incorporou sonhos, expectativas e também as contradições da modernização de São Paulo.
Quando: sábado, 15 de agosto, às 14h
Ponto de encontro: Parque Trianon
5. Casa Modernista: o futuro do morar inspirado em 1927
Uma das atividades mais alinhadas ao universo de arquitetura e interiores está na Casa Modernista da Rua Santa Cruz, projetada por Gregori Warchavchik em 1927.

O curso “Casa modernista, utopias do século 20, para o século 21” propõe imaginar novas formas de morar hoje a partir daquele projeto pioneiro.
A atividade inclui exercícios de desenho, escrita e criação de maquetes.
É um convite particularmente interessante para designers de interiores e arquitetos: o que ainda podemos aprender com uma casa modernista quase um século depois?
Quando: domingo, 16 de agosto, às 14h
Onde: Rua Santa Cruz, 325 – Vila Mariana
6. Burle Marx, Volpi e Geraldo de Barros na Capela Cristo Operário
A Capela Cristo Operário, na Vila São José, é outro endereço que deveria estar no roteiro de qualquer profissional interessado em arquitetura, arte e design.
O espaço reúne obras de nomes como Alfredo Volpi, Yolanda Mohalyi e Geraldo de Barros, além do paisagismo de Burle Marx.

O projeto nasceu da integração entre Arte, Trabalho e Religião, estabelecendo uma relação singular entre arquitetura, artes visuais, paisagismo e comunidade.
Quando: sábado, 15 de agosto, às 10h
Onde: Rua Vergueiro, 7290
7. O tijolo como objeto de design e memória
Pode parecer apenas um material de construção. Na Jornada, porém, o tijolo ganha status de documento histórico.
O curso dedicado ao tema parte de tijolos recuperados em escavações arqueológicas realizadas em diferentes pontos de São Paulo, incluindo Sítio Morrinhos, Solar da Marquesa, Beco do Pinto, casas do Tatuapé e Itaim Bibi, Vale do Anhangabaú, Casa do Grito, Edifício Ramos de Azevedo e Parque Augusta.
A proposta é entender o material como fonte para investigar técnicas construtivas e o processo de urbanização paulistano.
Quando: sábado, 15 de agosto, às 15h30
Para profissionais de interiores, arquitetura e restauração, é uma oportunidade de olhar para o material não apenas pela estética, mas pela sua história construtiva.
8. Esquadrias: a pequena escala que sustenta a memória
Outro programa extremamente interessante é a oficina “As mãos que sustentam a cidade: restauração de esquadrias e memória construtiva no Edifício Jaçatuba”.
A atividade tem caráter teórico-prático e aborda a conservação de esquadrias de madeira, mostrando como um elemento aparentemente secundário pode funcionar como suporte da memória arquitetônica.

Mais do que uma aula sobre restauro, a proposta chama atenção para os profissionais e trabalhadores que mantêm vivo o patrimônio construído.
Quando: domingo, 16 de agosto, às 9h
Onde: Rua Araújo, 165 – República
9. Palácio das Indústrias: ecletismo, indústria e modernidade
No Museu Catavento, o curso “O Palácio das Indústrias na São Paulo dos anos 1920: entre tradição e inovação arquitetônica” investiga o edifício projetado por Domiziano Rossi e executado pelo escritório de Ramos de Azevedo.
Inaugurado em 1924, o prédio representa o momento em que a São Paulo industrial começa a incorporar novas ideias de modernidade sem abandonar completamente a tradição eclética.
É um excelente roteiro para compreender a arquitetura paulistana em um momento de transição.
Quando: sábado, 15 de agosto, às 9h
Onde: Museu Catavento – Parque Dom Pedro II
10. Baixo Pinheiros: do casario aos arranha-céus
Se a intenção é observar a cidade acontecendo diante dos olhos, vale reservar espaço para o roteiro “Baixo Pinheiros em transformação: do casario aos arranha-céus”.
A caminhada fotográfica parte da região da estação Faria Lima e coloca lado a lado o casario dos anos 1950 e a nova verticalização.
É uma oportunidade de discutir densidade, valorização imobiliária, preservação e transformação da paisagem urbana.
Quando: sábado, 15 de agosto, às 13h
Ponto de encontro: estação Faria Lima
11. Campos Elíseos: preservação versus transformação
Outro roteiro para quem acompanha urbanismo é “Caminhos do patrimônio nos Campos Elíseos: história, transformações e preservação no território”.
A caminhada discute a implantação do bairro no final do século XIX, o processo de patrimonialização e os planos e projetos que modificaram o território.
Um dos pontos mais interessantes é a proposta de identificar permanências e apagamentos na paisagem.
Quando: sábado, 15 de agosto, às 10h
Ponto de encontro: Palácio Campos Elíseos
12. Vila Maria Zélia: quando o patrimônio ganha novos usos
A Vila Maria Zélia aparece na programação com uma discussão particularmente contemporânea: como um patrimônio tombado pode receber novos usos e significados?

O roteiro investiga como as casas históricas da antiga vila operária passaram a fazer parte de videoclipes, séries e novelas.
Para designers e arquitetos, é uma provocação sobre reuso, imaginário, cenografia e ressignificação do patrimônio.
Quando: domingo, 16 de agosto, às 15h
Onde: Rua dos Prazeres, 362 – Vila Maria Zélia
13. Ibirapuera: arquitetura, paisagismo e memória
O Parque Ibirapuera também entra no radar.
O roteiro “Ibirapuera: Cada Olhar, Uma História no Coração de São Paulo” propõe revisitar a história do parque e observar as diferentes formas como as pessoas se relacionam com esse território.
Para arquitetos e paisagistas, é uma chance de pensar o parque não somente como projeto, mas como paisagem cultural em permanente transformação.
Quando: domingo, 16 de agosto, às 10h
Ponto de encontro: Portão 10 – entrada do Museu Afro
14. Arqueologia do cotidiano: o que uma obra pode revelar?
Um dos cursos mais provocadores acontece na Vila Itororó: “Arqueologia do Cotidiano: quem define a importância do passado?”
A discussão parte, inclusive, da descoberta de trilhos de bondes durante obras sob o Minhocão e questiona quem decide se um vestígio encontrado em uma intervenção urbana deve ser tratado como patrimônio arqueológico.
O curso também orienta o público sobre o que fazer diante de possíveis achados arqueológicos em obras.
Para arquitetos e profissionais que trabalham com reformas, retrofit e intervenções em áreas históricas, é um tema que ultrapassa o campo cultural e chega diretamente ao cotidiano profissional.
15. Arquitetura em bairros: a cidade para além do centro
A Jornada também propõe uma reflexão importante sobre desigualdade territorial.
O curso “Arquitetura em Bairros” compara projetos residenciais de alto padrão com habitações em áreas de baixa renda, analisando tipologias, urbanização, ergonomia, habitabilidade, densidade e condições socioeconômicas.
É um programa que desloca o olhar do arquiteto dos edifícios icônicos para a questão central da arquitetura: como as condições sociais moldam os espaços onde as pessoas vivem?
Quando: sábado, 15 de agosto, às 11h
Onde: Vila Silva Teles
Roteiro ideal para arquitetos e designers
Para quem pretende aproveitar a Jornada como uma verdadeira imersão em arquitetura e patrimônio, uma estratégia é dividir o fim de semana por temas.
SÁBADO | 15 DE AGOSTO
9h – Palácio das Indústrias
Comece pelo curso sobre arquitetura, indústria e modernidade no edifício de Domiziano Rossi e Ramos de Azevedo.
10h – Igreja de Santo Antônio
Siga para o Centro e conheça o projeto de restauro e os desafios de preservação do edifício.
10h – alternativa: Caminhada “Detalhes Quase Secretos da Arquitetura”
Se o interesse for repertório visual, escolha esta caminhada em vez da igreja.
13h – Baixo Pinheiros
Observe o choque entre o casario e a verticalização contemporânea.
14h – São Paulo de Vidro
Feche a tarde com Roger Zmekhol e a arquitetura moderna da Paulista.
15h30 – O tijolo como patrimônio
Para quem conseguir conciliar os deslocamentos, o curso sobre tijolos oferece um mergulho nos materiais e nas técnicas construtivas da cidade.
DOMINGO | 16 DE AGOSTO
9h – Edifício Jaçatuba
Comece com a oficina de restauração de esquadrias.
10h – Teatro Cultura Artística
Conheça o processo de restauro e reconstrução após o incêndio.
14h – Casa Modernista
Termine a tarde na obra de Gregori Warchavchik, pensando o morar contemporâneo a partir de um projeto de 1927.
15h – Vila Maria Zélia ou Arqueologia do Cotidiano
Escolha entre discutir novos usos para o patrimônio operário ou investigar o que os vestígios arqueológicos podem revelar sobre a cidade.
O que arquitetos e designers devem observar durante a Jornada
Mais do que simplesmente fotografar fachadas, vale fazer um exercício de olhar.
1. Materiais
Observe tijolos, esquadrias, pisos, revestimentos e técnicas construtivas.
2. Detalhes
Molduras, ornamentos, ferragens, portas, janelas e elementos que normalmente passam despercebidos.
3. Relação entre antigo e novo
Como as intervenções contemporâneas dialogam com o edifício existente?
4. Reuso
O que acontece quando uma construção histórica ganha uma nova função?
5. Paisagem
Como arquitetura, vegetação, espaços públicos e infraestrutura se relacionam?
6. Moradia
Quais formas de morar desapareceram? E quais podem inspirar soluções para o presente?
7. Cidade em transformação
Onde a verticalização substituiu o casario? O que foi preservado? O que desapareceu?
8. Memória imaterial
Quem construiu esses lugares? Quem viveu neles? Quais histórias ficaram fora dos registros oficiais?
A cidade como matéria-prima
A grande força da Jornada do Patrimônio 2026 talvez esteja justamente em não tratar patrimônio como algo congelado no tempo.
A programação parte da ideia de que São Paulo é construída pela relação entre pessoas, espaços e práticas sociais. Isso muda a perspectiva: patrimônio deixa de ser apenas um prédio antigo e passa a incluir modos de viver, fazer, trabalhar, ocupar e transformar a cidade.
Para arquitetos e designers, essa é uma oportunidade rara de sair do escritório e voltar a olhar para a cidade como fonte de repertório.
Porque, em São Paulo, até uma esquadria pode contar uma história. Um tijolo pode revelar uma transformação urbana. Um jardim pode explicar uma ideia de modernidade. E uma casa de quase cem anos pode ainda provocar perguntas sobre como queremos morar amanhã.
A Jornada acontece nos dias 15 e 16 de agosto, com atividades gratuitas. Algumas atrações exigem inscrição prévia e as vagas devem ser verificadas individualmente na programação oficial.
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